sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

NANO DA SILVA RAMOS

O Blog do Capelli, como de costume, me lembra de datas importantes, como o aniversário hoje de Hermano da Silva Ramos, o terceiro brasileiro a disputar uma corrida de Fórmula 1. Em 2001, tive uma longa e ótima conversa com ele por telefone, que rendeu no ano seguinte esta coluna do GP Total – além de uma foto autografada com dedicatória e tudo, devidamente exposta na parede do meu apartamento em Viena. Conheça mais sobre Nano!

+++

MESSIEUR NANÔ

Luis Fernando Ramos

Hermano João da Silva Ramos permanece até hoje, ao lado do já falecido Gino Bianco, como um dos mais desconhecidos dentre os pilotos brasileiros que correram na Fórmula 1. Trata-se de uma tremenda injustiça. Nano (seu apelido de família) vive hoje muito bem à beira-mar, na cidade francesa de Biarritz. E guarda diversas memórias de um dos períodos mais interessantes do automobilismo europeu, os anos 50. Pude constatar isto num delicioso bate-papo por telefone que tivemos no ano passado.

Pode-se argumentar que Nano, como Gino Bianco, eram pilotos europeus de nascimento e por isso não teriam a mesma importância dos outros 25 brasileiros que entrararam na Fórmula 1. Bobagem! Ninguém nunca questionou que Jochen Rindt era austríaco ou que o tenista John McEnroe seja norte-americano, embora ambos tenham nascido na Alemanha. E o Fininho? Depois de tantas alegrias que o showman do tênis brasileiro nos deu em disputas da Copa Davis, com tanto espírito guerreiro, alguém ainda vai implicar com o fato de Fernando Meligeni ter nascido em Buenos Aires?

Pois é. Nano nasceu em Paris no dia 7 de dezembro de 1925, filho de pai brasileiro e mãe francesa. Com dupla nacionalidade, cresceu lá mas veio ao Rio de Janeiro na época da II Guerra Mundial. E foi aqui que passou a se interessar pelo automobilismo. Com pouco mais de vinte anos comprou um carro esporte inglês, o MG, e passou a disputar algumas corridas, mais por diversão do que qualquer outra coisa. “O Carlinhos Guinle, filho do presidente do Automóvel Clube do Brasil, importou 40 carros desta marca na época e todos os rapazes do Rio compraram um. Fizemos corridas na Boa Vista e até mesmo no Flamengo”, relembra.

Já infectado pelo vírus da velocidade, Nano voltou a viver na França e foi logo ver a edição de 1952 das 24 Horas de Le Mans. Se apaixonou pelo Aston Martin DB2 de um competidor e resolveu comprar um para si. Com ele, disputou a prova no ano seguinte, andando entre os primeiros de sua categoria antes de abandonar com uma suspensão quebrada.

Algumas atuações de destaque no automobilismo francês lhe renderam um convite para correr na equipe oficial da Gordini. Foi por ela que Nano disputou sete provas válidas pelo Mundial de F-1: três em 1955 e quatro em 1956. Terminou três e abandonou em quatro, um resultado razoável tendo em vista a precariedade da equipe, uma espécie de Minardi da época. “Os carros quebravam muito porque a Gordini não tinha dinheiro para comprar peças novas. A suspensão sempre dava problemas e às vezes até perdíamos as rodas. Era muito perigoso”, comenta.

Seu melhor momento na categoria foi no GP de Mônaco de 1956, quando chegou em quinto lugar e se tornou o segundo brasileiro a pontuar, depois que Chico Landi ficou em quarto lugar no GP da Argentina do mesmo ano. Na época, a corrida consistia de 100 voltas pelas ruas do principado. Nano fez uma corrida inteligente e concentrada, levando o carro até o final e sendo premiado com dois pontos.

Mas sua maior lembrança do evento foi do treino livre de quinta-feira, iniciado no curioso horário das 5h45 da manhã para que o trânsito estivesse aberto ao público às 10 horas. Os pilotos completaram a primeira volta em um clima de cidade deserta, mas iniciaram a segunda sob os aplausos e incentivo de uma multidão que se juntou nas janelas e sacadas dos prédios. Ainda vestidos com pijama, naturalmente. “Em uma volta, acordamos uma cidade inteira.”

Numa época em que ainda a Fórmula 1 não tinha o status de hoje, a atenção de Nano naturalmente estava voltada para Le Mans, a corrida mais importante da época. Lá, viveu dois momentos marcantes. O primeiro foi em 1955, quando passou pelos boxes segundos depois do acidente fatal com o Mercedes de Pierre Levegh que matou mais de 80 pessoas – a maior tragédia da história do automobilismo. “Era horrível, tinham dois carros e vários corpos queimando. Parecia o fim do mundo! A minha mulher estava lá, nos boxes, e ficou tão abatida que nunca mais foi à uma corrida.”

O segundo foi em 1959, quando foi convidado pela equipe de fábrica da Ferrari para correr com o belo GT 250 de Maranello. Nos treinos antes da corrida, Nano marcou o melhor tempo. Ganhou uma enorme foto na capa do tradicional jornal francês Le Figaro, maior até que o registro do casamento da musa Brigitte Bardot com Jacques Charrier.

“Eu tinha certeza que ia ganhar. Meu carro andava um pouco melhor que os outros da Ferrari. Sabe como é, quando uma equipe tem três carros, sempre tem um com um motorzinho melhor. O Jean Behra ficou furioso por achar que o Tavoni, diretor da Ferrari, deliberadamente não lhe deu o melhor carro. Behra discutiu e acabou dando um soco no italiano. Naturalmente, foi despedido.” O sonho do brasileiro durou apenas quatro horas, quando o câmbio quebrou enquanto andava entre os primeiros colocados.

A última corrida de Nano foi no Brasil, em 1960, quase duas décadas depois de rasgar as ruas do Rio com os carros importados por Carlinhos Guinle. Correndo com um Porsche numa prova para carros esporte na Barra da Tijuca, ficou em segundo lugar.

De vez em quando, Nano passa alguns dias no Brasil visitando um de seus quatro filhos, que trabalha como corretor de imóveis no Rio de Janeiro. É também membro ativo da Associação dos Ex-Pilotos de Grand Prix e comparece com alguma freqüência em homenagens e demonstrações de carros antigos.

Se restava alguma dúvida sobre para qual país bate o coração do piloto de dupla nacionalidade, ela se dissipou com uma simples pergunta: para quem ele torceu na final da Copa do Mundo de futebol em 1998? “Para o Brasil, é claro! Preparei uma feijoada e convidei vários amigos para vibrar com a Seleção”, disse. Teve de amargar a derrota para a França por 3 a 0, como qualquer brasileiro.

5 comentários:

Lucas Carioli disse...

É verdade que ele é vizinho do Prost na França?

Othon disse...

uai Ico...parente seu ??? rsrsrs

Anônimo disse...

Sensacional, não sabia muita coisa do Nano ,mas dá para perceber como era os anos 50 com o relato dele ,não devia ser facil encarar um Gordini.
Mas em compensação ele dirigiu uma daquelas jóias oficiais da Ferrari .

Jonny'O

Anônimo disse...

"Silva Ramos? Biarritz?"
por volta de 1950 um rumoroso crime agitou a sociedade Europeia : o playboy brasileiro Silva Ramos foi condenado por ter assassinada em Biarritz a sua mulher por por ter um caso com seu primo Nano Silva Ramos !
trata se do mesmo Silva Ramos?

Aqui no Brasil nem os mais velhos ouviram falar deste crime.

Alexandre Carvalho disse...

Sim, trata-se do mesmo Nano da Silva Ramos. O tal playboy a quem você se refere era, na verdade, seu primo João, que pouco depois foi absolvido. Pelo que li em relatos da época, parece que nada nunca ficou provado.